A UE e o novo desafio grego…

A Grécia está obrigada, após o insucesso de uma 3ª votação para a eleição presidencial, a fazer um interregno no negro e difícil ciclo de resgate financeiro para ir a eleições e clarificar as suas políticas.

É cedo para anunciar vencedores e vencidos mas a campanha-relâmpago que vai iniciar-se trará obrigatoriamente para o terreno a discussão sobre o modelo e os resultados de uma intervenção externa sobre um País, um povo e uma sociedade. Esperemos que o terror (da dívida), os medos (das incertezas e da bancarrota) e as chantagens (dos mercados) sejam arredados dessa discussão.

Finalmente, as severas políticas de austeridade vão ser julgadas nas urnas depois de terem sido, anos a fio, impostas por sucessivos Conselhos Europeus, onde os Países mais débeis e periféricos pouca ou nenhuma voz têm.

Cometeram-se, na Europa, desde o início do presente século clamorosos erros políticos, económicos e financeiros que colocaram importantes e decisivos desafios aos Países europeus oriundos de uma profunda crise financeira e bancária internacional.

A resposta não tem apresentado, contudo, esta abrangência, nem existiu preocupação em preservar os equilíbrios necessários que cedo se revelarão indispensáveis.
Foi sobretudo uma resposta política com preocupações orçamentais, eminentemente ideológica e com enormes repercussões sociais. A vertente financeira primeira responsável pela ‘crise’, manteve-se, até agora, fora do burburinho e rebuliço. A componente económica arcou com falências em série e sofreu uma espécie de desordenado 'expurgo', que fez disparar o desemprego.
Procedeu-se a um brutal ajustamento orçamental gerador de uma prolongada recessão económica com todo o cortejo de consequências e acima de tudo destruidora da coesão social. Esta espúria ‘aliança’ austeridade/recessão não passará impune no acto eleitoral que se anuncia.

Todavia, perante estes factos, a cúpula dirigente europeia tem sido monocórdica (dominada pelo 'eixo Berlim/Frankfurt/Bruxelas'), não conseguindo coordenar-se internamente para pensar o presente e decidir o futuro fora dos grilhões dos mercados (quer por motivações ideológicas, quer por submissão a obscuras estratégias de globalização), dificilmente consegue traduzir ou concertar-se com a diversidade económica, financeira, social e cultural existente no velho Continente.
A Europa deixou morrer a sua criatividade (comunitária e reformista) que, no passado recente, a guindou à situação de parceira na liderança política, económica e social do Mundo, deixando sucumbir o projecto comum em construção (associativo, federal ou unionista, à escolha), por rígidas políticas fiscais ditadas pelos insondáveis mercados, pela cegueira de uma feroz competitividade a ser erguida à custa do desmembramento do bem-estar e coesão social e pelas infindáveis peias burocráticas (não isentas de conteúdos ideológicos) emanadas da Comissão sediada em Bruxelas.
Todo este processo foi sendo desenvolvido por um círculo muito restrito de decisores - onde as vozes dissonantes foram sistematicamente abafadas - acantonados num Conselho Europeu pouco ágil, comprometido e nada criativo. Este 'desconcerto' é hoje bem visível.
No ‘quadro comum europeu’ só as eleições para o Parlamento Europeu (despojado de poderes executivos ou do seu efectivo controlo) vieram esporadicamente dar um ténue e pouco clarificador ‘ar da sua graça’, infelizmente, sem consequências.

As reacções nacionais obtidas por escrutínio democrático e eleitoral, como as que se verificaram em França, ou de modo orgânico na Itália, foram rapidamente anuladas e subjugadas.
No presente, a crise grega surge como uma situação nova, carregando um carácter plebiscitário que ultrapassa as suas fronteiras.
Trata-se de um País sujeito a uma drástica intervenção, sob os auspícios da cúpula dirigente europeia, associada a organismos financeiros internacionais, com vista a solucionar uma dramática situação interna próxima do incumprimento (do default), em nome da preservação da ‘unidade e integração europeia’ e, através de uma receita apresentada como ‘resgatadora’, muito próxima de uma severa punição.

Ao fim de mais de 4 anos de intervenção e de muitos precalços os resultados vão ser avaliados pelos cidadãos.
A actual ‘crise grega’ será, em primeiro lugar, um escrutínio nacional sobre o conturbado resgate, embora o reflexo na União não possa, nem deva, ser escamoteado.
Estamos, portanto, perante uma avaliação (democrática e nacional) que tem sido permanentemente evitada ou postergada pela clique dirigente europeia.

Não será mais possível à UE, e à Euro Zona, continuar a responder à crise como tem feito até aqui. As transferências de capitais da periferia para os países europeus mais desenvolvidos, sob ameaça dos mercados manipulados pelos ditos ‘credores’, para além de ser o sustentáculo de superavits orçamentais para alguns (poucos), transformou-se num caudal de aberrações e iniquidades, com pretensões de durabilidade a médio e longo prazo que não são compatíveis com o mais moderado (ou federado) conceito de soberania e mais não fizeram do que cavar mais fundo os problemas (que existiam à partida e continuam a existir).

Ao fim de 4 anos de intervenção financeira dura e rigorosa já era tempo de (co)existirem mudanças significativas na economia e alterações na inaceitável taxa de desemprego, que nem o mais crente e afoito europeísta vislumbra.

A intervenção externa foi pomposamente denominada de ‘Plano de Assistência Económica e Financeira’. 
Hoje, é notório para a Grécia, e para a toda a Europa do Sul, que estamos circunscritos a medidas financeiras e fiscais traduzidas pela rigidez do Pacto Orçamental (arvorada em 'regra de ouro') e que a Economia continua a não ter estímulos que a façam mexer e crescer. Ficamos prisioneiros de um conceito que ninguém lhe reconhece virtudes intrínsecas e continua infrutífero: a ‘austeridade criadora’.
Pelo contrário, a austeridade, os sacrifícios e o empobrecimento cansaram e perderam o sentido perante o depauperar da Economia, o aumento do desemprego e o galopante empobrecimento.
Os equilíbrios que geraram a UE ameaçam romper-se. As eleições gregas podem ser o agente detonador, sem que existam mecanismos moderadores e controladores de uma anunciada ‘explosão’.

Esta a nova fase da política europeia que sendo aparentemente um assunto interno vai, ao fim e ao cabo, pronunciar-se sobre duas questões bastantes lineares mas sumamente importantes de âmbito europeu: as receitas actuais e o futuro (da Grécia e da UE).

Existe uma outra hipótese, mais macabra, que não deve ser excluída. As eleições para o parlamento grego poderão revelar uma Grécia ingovernável e conduzirem a uma implosão do regime democrático. Essa seria uma outra derrota para a Grécia e para toda a Europa, talvez a mais grave de todas, porque acarretaria consequências e rebates imprevisíveis.
A verificar-se essa tragédia poderíamos ter a certeza que os equilíbrios necessários e fundamentais para a existência (ou persistência) da UE terão irremediavelmente desaparecido.


Comentários

josé neves disse…
Muito bem Martins Guerreiro, conterrâneo e amigo de infância.
Como constatas, agora na morte de um herói do 25A, é cada vez mais notório que quer o actual governo de retornados ressentidos e vingativos quer cavaco, o bronco desconfiado, se sentiam bem integrados no regime salazarista como consta de uma declaração deste.
Mas o pior de tudo está em que agora são os antigos bem integrados que nos querem à força integrar a nós nessa situação pré-25A.
As forças vivas sãs e honestas que amam a liberdade e o país estão adormecidas e precisam acordar.
José Neves:

Também subscrevo o comentário, mas caiu no post errado.

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