Autópsia do momento político: vários ‘impasses’ em banho-maria…

A maioria governamental tem por costume atribuir às oposições a autoria (e a responsabilidade) dos vários impasses que têm recheado a trajectória de resgate (do deficit orçamental e da dívida excessiva) a que Portugal foi submetido. A acreditar no que dizem nada de anormal se passa no interior da actual coligação de Direita.

A reunião de ontem da comissão política do CDS veio levantar a ponta do véu link. Os comissionistas do CDS entretiveram-se a falar, os dirigentes a ouvir e todos a estudar cenários. É esta a conclusão possível a tirar das palavras dos responsáveis políticos proferidas no final da reunião.
De facto, o CDS sendo um parceiro indispensável para a sobrevivência da actual coligação adiou o futuro deste governo para 15 de Abril link.

Neste momento, no interior do CDS, procede-se aos inevitáveis e preliminares balanços. Entre o que será mais dramático: romper agora tentando demarcar-se do percurso do PSD ou, acabar demitido num cenário de catástrofe (incumprimento e negociação de um segundo resgate). As opções não são boas - nem para o CDS nem para os portugueses - e o futuro não aparece risonho. Entre ‘romper’ agora com o ónus da dissensão ou ‘fugir’ mais tarde arcando a co-responsabilidade de mais um resgate, a escolha será sempre difícil e traumática.

Importante para os ‘centristas’ será calcular a dimensão dos danos já que neste momento tornou-se impossível sair incólume. Falta encontrar o pretexto. Este, a tomar em consideração os sinais vindos a público oriundos da actual maioria, poderá surgir a cavalo do veredicto do Tribunal Constitucional se vierem a confirmar as previsões de juristas e constitucionalistas. Até porque é politicamente conturbado e demolidor substituir as medidas em análise no TC por mais austeridade passível de ser avalizada pelo partido de Paulo Portas sem perder (mais uma vez!) a face perante o ‘seu’ eleitorado. Na verdade estamos na presença de um partido ainda não refeito da enorme subida de impostos no OE 2013 que foi obrigado a subscrever. A digestão tem sido lenta e, por enquanto, silenciosa, mas o problema relativo à sua base de apoio, subsiste.

Aliás, a análise que ontem terá sido iniciada no interior do CDS é um dos reflexos da instabilidade política oriunda no seio da maioria. Depois do ‘corte’ do PS com a actual coligação governamental seria obvio que a instabilidade se centrasse no seio das forças que a compõem.

Afinal, o cenário não é tão dramático como a porta-voz do PSD tentou ontem pintar sublinhando arrogante e despropositadamente que estariam em causa ‘mecanismos’ democráticos e até constitucionais. link. O que está a vir ao de cimo é a ilusória responsabilidade ‘colectiva’ num cenário onde tudo correu mal e que naturalmente deu cabo da ‘estabilidade’ interna. Por essa razão as personalidades mais alinhadas com o Governo, perante o impasse, pretendem deslocar as soluções para uma remodelação ministerial (que já terá perdido o timing e a oportunidade).

A moção de censura do maior partido da oposição corre o risco de chegar tarde muito embora acabe por anteceder a definição do CDS. De facto a apresentação da moção de censura está prevista para a próxima semana link. E a partir daí a AR tem 3 dias para a agendar. Esta moção é um iniludível sinal para os credores de que a cega insistência em políticas altamente recessivas e a permanente rejeição de metas de crescimento económico 'matou' todo o consenso político e social. Este será o maior dano em termos de confiança futura para o País que sofreu um veloz e dramático processo de 'ajustamento', vulgo, empobrecimento. Existe uma situação de anunciada ruptura mantida em incubação há vários meses e que disparou na ‘questão da TSU’ tendo assentado arraiais após a imponente manifestação de 15 de Setembro. A partir daí o Governo sobreviveu, mas estava ferido de morte. É por isso que a moção do PS aparece – aos portugueses - como inevitável e inadiável, apesar de conhecermos o desfecho imediato e de aparentemente ser inconsequente. Mas os políticos sabem que as moções – esta ou outras – nunca são assépticas. Podem não causar morte súbita, mas amolentam.

Todavia, o processo (político e partidário) não acaba aqui e há muito que deixou de transitar por Belém que envolvendo-se em silêncios e falsos distanciamentos perdeu, de todo, a capacidade de iniciativa e a possibilidade de influenciar a situação política e governativa. O PR continua a contemplar na sua torre de marfim a derrocada. Uma atitude sobreponível a do imperador Nero que, segundo reza a tradição,  dedilhava a harpa, enquanto Roma ardia à sua frente...

Outra ‘moção’ – esta envergonhada e silenciosa - deverá começar a ser desenhada a partir de 15 de Abril pelo CDS. Esse o resultado 'oculto' (ou ocultado) da reunião da comissão política do CDS realizada ontem.

Infelizmente para os portugueses e para a necessária e urgente clarificação política todos percebemos que o destino do actual Governo está a ser cozinhado em lume brando. Ou, talvez, em 'banho-maria'.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Divagando sobre barretes e 'experiências'…

26 de agosto – efemérides