Durão Barroso, Iraque e prémio Nobel da Paz

Em maio de 2003, quando Paulo Portas, à saída da audiência que tinha concedido, nos EUA, a Donald Rumsfeld, declarou que Portugal “...faz parte do conjunto dos países vencedores”, exultei. Essa glória não a tiveram os franceses, não a partilharam os alemães, não a puderam almejar os russos. Faltou-lhes um ministro da Defesa calejado em batalhas e, sobretudo, não lhes coube um primeiro-ministro que visse longe.
Na encomenda de submarinos já se conjugaram o fascínio por veículos topo de  gama e o anseio de dilatar a Fé e o Império do Bem. Foi-lhe fácil convencer Durão Barroso de que essa ideia de “nem mais um soldado para as colónias” era obsoleta e, de qualquer modo, referia-se às colónias portuguesas e não às dos EUA. Com o PR a ver com maus olhos a gloriosa expedição ao Iraque, por preconceitos morais e jurídicos, coube ao seu homólogo da Administração Interna enviar uma companhia completa da GNR, muito mais do que a França e a Alemanha juntas. Ficou arredado o ministro da Defesa mas empenhou-se na campanha o ministro de Estado e cobriu-se de glória o primeiro-ministro Durão Barroso.
Talvez os portugueses desconheçam que o Iraque é um país nosso vizinho, com o qual temos fronteira marítima, à semelhança do que acontece com os EUA, de acordo com Paulo Portas. O Iraque ansiava pelo contingente da GNR para restaurar a paz e a ordem e Portugal regressou aos feitos heroicos nesta era pós-Moderna. Para dilatar a fé e o império, como sempre, para levar a construção civil e alguma empresa de sondagens, projetos que se goraram.
Não tivemos de chorar esses governantes porque os portugueses os merecerem. Hoje, Paulo Portas coloniza o aparelho de Estado perante um PM incompetente e ignorante.
E, lá longe, o PM que invadiu o Iraque, foi moço de recados de Bush e Aznar, e fugiu, co-recebeu hoje o Prémio Nobel da Paz em nome de uma Europa onde é capataz da Senhora Merkel.

Triste ironia que nos impede de apreciar o inglês em que agradeceu o prémio.

Comentários

e-pá! disse…
Independentemente da questão do mérito (ou demérito) à volta da atribuição do Prémio Nobel da Paz à UE, cuja oportunidade e pertinência é discutível, sempre considerei que o referido galhardão deveria ser recebido - exclusivamente - pelo presidente do Parlamento Europeu, personalidade com legitimidade representativa de raiz democrática, pois o exercício desse cargo resulta de actos eleitorais efectuados nos países da União.

A presença na referida cerimónia em representação da UE de burocratas cooptados para exercícios dos respectivos cargos (presidente da Comissão e da UE) por manobras de natureza política e por 'arranjos' partidários circunstanciais, como é o caso de Barroso e de Van Rompuy, mostrou-se deslocada e extemporânea (para não optar por designações mais duras).

Aliás, a cerimónia terá sido, para os cidadãos europeus, algo incomodativa.
O verdadeiro 'açambarcador' do prémio (em termos de dividendos políticos imediatos) mas, simultaneamente, a mais acutilante ameaça à prossecução e consolidação da paz europeia (nomeadamente da 'paz social'), encontrava-se vigilante, atenta e venerada no meio da assistência. De sua graça: Angela Merkel. Facto que tornou a cerimónia ainda mais bizarra.
São muito pertinentes o post e o comentário, com os quais estou inteiramente de acordo.
Galardoaram a U.E. justamente na altura em que o ideal europeu anda pelas ruas da amargura. É a Europa do "cada um por si", simbolizada pela declaração do 1º ministro inglês quando disse que ia a uma reunião do Conselho "para defender os interesses do Reino Unido". Ou pior ainda, a Europa cujos membros ricos querem explorar os membros pobres.
E de facto a Europa estava muito mal representada pelos burocratas Van Rompuy e Barroso. Sobretudo este, pelos seus gloriosos feitos bélicos no Iraque, é a pessoa menos indicada para receber, mesmo que em representação da U.E., um prémio Nobel da Paz.

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