Momento de poesia

Carta a Picasso



(A propósito da pintura “Les Demoiselles d’ Avignon”)*


Não sei se as fodeste, antes de as pintares

para lhes matar o erotismo e a beleza

sei que não te enforcaste atrás da tela

como previra Derain

a carne rósea está lá, bem esquadrinhada,

sob o fundo azul da tua matriz original

e em explosivo esplendor,

resultado da tua arte,

mas espartilhada na frieza

das linhas firmes

rasgadas a régua e a esquadro.

Os rostos foram talhados a machado

e só os olhos brilham

em esquadrias angulosas

e não sei se há naqueles olhares

um qualquer desapiedado desprezo

ou algum apelo ou desagravo

ou até uma incisiva acusação,

pois ternura e afectos são coisas que lá não vejo.

Eu sei que te inspiraste em formas arcaicas

embora negues a herança negróide

do nariz de todas elas

mas quero dizer-te, Picasso,

com esta geometria descentrada

salvaste a pintura e a Humanidade

e soubeste afirmar a arte como mentira

tal como Plínio afirmou

a propósito daquele pintor romano

que pintou uvas tão perfeitas

que até os pássaros as foram debicar.

E, para comer, tu apenas nos deixaste

no fundo da tela

o cacho de uvas, a pêra, a maçã,

e uma talhada de melancia.

És um forreta, Picasso,

e agora já sei que as fodeste, antes de as pintares.

Alexandre de Castro


* Célebre pintura de 1907, que inaugurou a corrente cubista.

Comentários

Mano 69 disse…
O Alexandre é de Castro e não casto.

;-)
e-pá! disse…
CURIOSIDADEAo contrário do que muita gente pensa, Picasso não pintou o quadro “Les Demoiselles d’ Avignon”, na cidade de Avignon (França), junto a Nimes, na Provença.

A inspiração para o famoso quadro teria nascido na calle d' Avignon (Barcelona), hoje, carrer d'Avinyó (em catalão), entre as Ramblas e a Generalitat de Catalunya, ruas onde fervilhavam os lupanares e, hoje, segundo reza a tradição oral, existe (num desses ancestrais espaços?) um restaurante, requintado, que serve comida catalã, boa, mediterânica.

Já não há "meninas"....

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