O sino do relógio da minha aldeia (crónica)


Na aldeia o sino da torre ainda insiste nas meias horas e, com intervalo curto, na repetição das horas diurnas. Calam-no, de noite, para não perturbar o sono de citadinos em férias. O relógio comunitário ignora os seus homólogos, no pulso dos cidadãos, a sua fiabilidade e a facilidade da consulta.

À força de se repetir vão-se as pessoas esquecendo de escutá-lo e de lhe prestar atenção. Se acaso parar poucos darão pela falta e o abandono será o destino fatal que já o condena. Viverá enquanto não se partir a corda e o maquinismo não encravar.

Mingua nas presas a água que regava os campos à claridade da aurora. Secaram as fontes que alimentavam regatos, mantinham viçosos os prados e os defendiam da canícula.

Falta a água, seca a erva, ficam maninhos os campos. Os velhos vão mirrando enquanto os novos se fizeram à vida e abandonaram as terras e os pais.

Também na igreja o sino chama os paroquianos para os actos litúrgicos com o som triste de quem envelheceu com as pessoas e trina por hábito, sem convicção nem entusiasmo dos que ainda o escutam.

Só os emigrantes iludem, durante as férias, a solidão e abandono a que o interior de Portugal está votado. Foi longo o processo, mas eficaz, penoso e irreversível.

(Publicado no Jornal do Fundão, hoje).

Comentários

e-pá! disse…
Bela e oportuna crónica.

Muitas vezes interrogo-me sobre a lenta agonia do Mundo Rural.
E, fundamentalmente, sobre os danos que, o contínuo êxodo para a urbe, vai trazendo à nossa identidade, enquanto Povo.
O pungente abandono das nossas remotas âncoras sociológicas fede-me, sempre, a catástrofe cultural.

Nessas alturas, refugiu-me nos livros e, consolo-me, por exemplo, nos contos prenhes de ruralidade do grande escritor coimbrão - Miguel Torga (de Coimbra, de Portugal e do Mundo).
Nomeadamente, naquilo que considero a sua obra autobiográfica onde, com rara clarividência, exprime a plenitude e a autenticidade de um sólido e virtuoso homem rural - CRIAÇÃO DO MUNDO.
Paulatina e reflectidamente foi escrevendo estes brilhantes textos de 1937 a 1981.
Uma vida.
cãorafeiro disse…
que bonito.

carlos para quando a publicação destas tuas crónicas em livro?
cãorafeiro disse…
é-pá, não é por acaso que miguel torga, um escritor que marca todos os que o leram, está cada vez mais posto de lado...
Anónimo disse…
Bom texto amigo "França"!
Simples, sereno, mas "real".
Escreve sempre, porque escreves bem.
Carlos Esperança disse…
Bom texto amigo "França"!


Ah!ah!ah! Já estás reformado?
Dá notícias para aesperanca@mail.telepac.pt
Anónimo disse…
Caro "França"
Vou dando noticias aqui, sempre e quando o tempo mo permitir.
Mas registei o teu email.
Não conhecia o "blogue". Foi via "piolho da solum".

Um abraço

PS - A reforma é só para os "predestinados" e "escolhidos".
Belo texto.

Real e poético.

Também gostaria de pôr o olho nestas crónicas, que parecem ser bastante "cobiçadas".
Amigo Esperança,

Mais uma vez, tomei a liberdade de reproduzir este seu excelente "post" no
Regionalização.

Cumprimentos,
Carlos Esperança disse…
Antonio Almeida Felizes:

Eu é que me sinto agradecido pela sua amável deferência.

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