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Almeida e o 25 de Abril – Crónica

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Tenho o raro privilégio de poder dizer o que penso, de ser lido e de incentivar quem, por modéstia ou timidez, cala testemunhos relevantes da nossa vida coletiva. Alguns julgam que outros o fazem e, assim, levando memórias, partiram muitos, sem se darem conta de que a História também se faz de retalhos da vida de cada um de nós.

Hoje recordo Almeida, concelho onde a Pide perseguia e torturava emigrantes, quando os prendia por fugirem à miséria, a tentarem chegar àquela Europa onde o nazi/fascismo findara em 1945, para lá dos Pirenéus. Prendia-os em Vilar Formoso, ali onde a Europa começa a ser Portugal.

Em 25 de Abril presidia à Câmara Municipal o Dr. Crisóstomo, notário, professor do colégio, indefetível salazarista e acrisolado fascista. Afirmava que considerava inimigo pessoal quem não fosse salazarista. Os adversários chamavam-lhe, por isso, “o Inimigo Pessoal”, enquanto os alunos do colégio o apelidavam de “o pai da nossa filha”, por ser habitual referir-se à filha, durante as a…

25 de Abril, Sempre!

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Amanhã é dia de comemorar a data maior da liberdade num país de quase nove séculos de História.

Daqui a uma dúzia de horas começa a noite da primeira madrugada em que a liberdade veio na ponta das espingardas embrulhada em cravos vermelhos, com balas por disparar e sonhos para cumprir. Há 44 anos.

Nunca tantos devemos tanto a um exército que deixou de ser o instrumento da repressão da ditadura, para se transformar no veículo da liberdade conduzido, por jovens capitães.

Foi a mais bela página da nossa História e o dia mais feliz da minha vida. Abriram-se, por magia, as prisões, neutralizou-se a polícia política, acabou a censura e não mais se ouviram os gritos dos torturados nas masmorras da Pide.

Há 44 anos, daqui a poucas horas, ainda os coronéis e os padres censores empunhavam o lápis azul da censura já sem efeito nas palavras e imagens cortadas. O dia 25 de Abril nasceria límpido e promissor com a guerra para acabar e a promiscuidade entre o Estado e a Igreja a ser interrompida.
O…

O que levou Marcelo a denunciar a Revolução?

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Marcelo Nuno, PR, deu uma entrevista telefónica à jornalista Alexandra Tavares-Teles, na revista Notícias Magazine, suplemento dominical do DN, recordando, ‘como viveu o 25 de Abril’, data que amanhã se celebra.

O PR, refere a resposta que deu ao pai, um influente ministro da ditadura, depois de este lhe ter dito que Marcelo Caetano lhe garantira que vinham a caminho de Lisboa tropas fiéis ao governo. Marcelo afirmou: «Disse-lhe o que sabia. ‘Não, pai, não vêm forças nenhumas, não pensem nisso, isto está a correr rapidamente. Acabou.’»

E a jornalista perguntou-lhe: «De onde vinha essa certeza?»

Marcelo respondeu com aquela candura que usa na intriga e nos afetos:

- O António Reis [militante e dirigente político ligado ao PS] tinha-me avisado da proximidade do 25 de Abril com alguma precisão. E embora o meu pai fosse dos membros do governo teoricamente mais bem informados, percebi, naquele momento, que, de facto, estava muito pouco informado. Penso que ele terá transmitido a informaçã…

O caso do ex-espião russo, em Londres

A notícia de que os serviços secretos do Reino Unido terão identificado vários suspeitos do envenenamento do ex-espião russo, Serguei Skripal, e da sua filha, Yulia, é uma boa novidade cuja confirmação e apuramento da verdade agrada a todos os amigos da paz.

Se vier a provar-se a responsabilidade da Rússia fica ilibada da insânia a Sr.ª May, que arrastou países da Nato em peripécias diplomáticas pouco recomendáveis, e tem agora o dever de provar que, para além da irreflexão, havia algo de substancial e não era apenas a repetição grotesca das armas químicas que Bush e Blair inventaram a Saddam Hussein para a tragédia da guerra e as dramáticas consequências que persistem.

O ónus da prova, quer no direito dos países civilizados, quer no direito internacional, é da responsabilidade de quem acusa. E não há perdão para quem inicia a guerra ou põe o mundo em sobressalto por meras conjeturas. Disparar primeiro e investigar depois é um fuzilamento provisório.

Não considero o Sr. Putin incapaz …

O SNS e a direita

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Quem votou contra o SNS e odeia o direito à saúde, universal e gratuito, quem tinha na caridade o modelo de assistência aos pobrezinhos e na iniciativa privada o sonho para os ricos, é quem mais reclama da ineficiência e da falta de meios para a assistência pública eficiente, que sempre detestou.

Claro que nem todos são hipócritas e perversos, mas há os idiotas úteis e os esquecidos do costume. O PSD e o CDS, que votaram contra a maior conquista do 25 de Abril, e a que mais beneficiou o país, surgem agora como paladinos do que sempre combateram.

É natural que, perante a aceitação generalizada e os benefícios da sua existência, possa a direita ter-se convertido à defesa do SNS, mas exige-se a declaração pública de repúdio do voto contra, para ser considerada honesta a legítima exigência de mais recursos, dos recursos que negou sempre que foi governo.

Não basta colocar no horário nobre das televisões as deficiências, tratar o sarampo como aterradora epidemia, filmar serviços de Urgênci…

(Mais) um olhar [focalizado] para a ‘crise cultural’ (II) …

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O País acordou - com evidente sobressalto - para uma latente ‘questão cultural’ aparentemente adormecida pelos inóspitos e duros anos de austeridade. Repentinamente o ‘meio cultural’ despertou à volta de cortes orçamentais e de espúrios mecanismos de seleção, que infestaram os ditos ‘apoios às artes’ link. Instalou-se aquilo a que podemos denominar como ‘uma crise cultural’. As primeiras impressões acerca da dimensão deste despautério são absolutamente devastadoras, sacodem o País de alto a baixo e motivaram um primeiro post sobre o assunto no dia 15.04.2018. É ainda difícil compreender, hoje, os critérios usados, mesmo após o emendar de mão protagonizado pelo primeiro-ministro. Quando se choca com o emprego de novas terminologias, como por exemplo, ‘cruzamentos disciplinares’, cujo âmbito parece demasiado vazio ou sintético, até ‘acultural’ e mais se assemelha a uma bissetriz de performances do tipo daquelas que, nos velhos tempos dos hippies, eram designadas por ‘happenings’, compr…

Descentralização administrativa

A regionalização de que o País precisa, cinco ou quatro regiões, Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve (ou Alentejo/Algarve) e, ao que parece, recusada, não deve ser substituída pelo aumento de competências e de dinheiros para municípios, alguns com menos de 3 mil eleitores. Mas vai ser.

Ter 308 concelhos, 11 só na Madeira e 19 nos Açores, já é uma divisão que enfraquece a dimensão e massa crítica que se exige para usar criteriosamente os recursos nacionais. A designada maior conquista de Abril levanta cada vez mais suspeitas de incapacidade e limitação das liberdades políticas. Há concelhos onde o mesmo partido se perpetua sem oposição, onde a competição eleitoral não existe e o poder autárquico se reduz cada vez mais à distribuição de empregos negociados com 3091 juntas de freguesia.

Não há, nos pequenos concelhos, uma oposição que fiscalize o poder discricionário dos autarcas, com a agravante da aberração legal em que os presidentes de junta integram as Assemblei…