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A minha ida a Fátima (Crónica de 2001)

21 de dezembro de 2001. Almoço de Natal Novartis --- BU – Oncologia.

Não sei quem teve a ideia do local, se alguém, na esperança de um milagre, pretendia aliviar a alma do fardo dos pecados, ou tão só cumprir o ritual canónico da comunhão fraterna em torno de uma mesa de fartos recursos gastronómicos.

O restaurante Tia Alice, ao lado do cemitério, do outro lado da rua da igreja paroquial onde foram batizados os pastorinhos, instalou-se numa cave onde só recebe fregueses depois do meio-dia. A cave é o local recôndito adequado ao ágape na capital da fé. A gula ignora aí os preceitos religiosos e ninguém tenta encontrar o Céu através do jejum.

Depois do repasto fui ver a capelinha das Aparições onde a Júlia e a Vanda debitavam padres-nossos e ave-marias, iluminando a fé com velas de 150 escudos emprestados pelo Cordeiro Pereira.

À volta da capela mulheres cansadas da vida viajavam a fé progredindo de joelhos a adejar o rosário; outras paravam genufletidas, em êxtase, acompanhadas por cri…

França, Macron e os actuais desafios da Esquerda…

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A decomposição do sistema partidário francês, verificada nas últimas eleições presidenciais e confirmada nas legislativas subsequentes, levanta vários problemas doutrinários e políticos, podendo inclusive questionar o regime (V República). A começar pelo complexo sistema eleitoral que lhe está inerente e não possibilita a expressão de quotas de representatividade de acordo com a dimensão e peso da expressão popular, considerada no seu conjunto.
Em relação ao establishment verifica-se uma abrupta alteração dos contornos das forças político-partidárias no terreno se considerarmos a situação existente há cerca de 1 ano. Tal rutura só foi possível porque o sistema apresenta múltiplas lacunas na representatividade popular e tem como consequência a perda de capacidade para responder às questões que os cidadãos desejam ver resolvidas e decorrem do exercício pleno da cidadania.
Por detrás dessa alteração existem fatores múltiplos e diversificados sendo o mais relevante a ‘deriva financeiris…

Os incêndios, as florestas e algumas circunstâncias…

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Os portugueses perante os trágicos acontecimentos do último fim-de-semana têm a sensação que todos os diagnósticos estão feitos. E que muita da legislação já foi produzida, restando alguma em estado preparatório como é habitual nos processos dinâmicos. Mesmo nas situações infernalmente dinâmicas. Há, contudo, situações com algum melindre institucional, económico, social e cultural.
Pretende-se num ápice – com motivações díspares - reformar tudo, de modo a ‘branquear’ uma arrastada situação que resvalou para o caótico. O rodopio de ‘responsáveis’ por Pedrogão Grande é revelador da aflição e do desnorte. Muito do que foi sendo mostrado exibia uma impositiva chancela de necessidade de mudança que a volumosa carga de acidentes mortais e o avanço na destruição rural (e não só florestal) pelas chamas pressionavam hora a hora.
Apelos à ‘reforma da floresta’, ao emparcelamento rural, à prevenção, à ativação das ZIF’s (Zonas de Intervenção Florestal), à gestão da floresta, etc., pululavam na…

Incêndios

A sofreguidão dos ‘especialistas’, a debitarem opiniões. e dos inquisidores, a exigirem execuções, ultrapassa a dos fogos, que tudo devoram à passagem.

O escândalo da lista VIP do fisco – Governo PSD/CDS

O escândalo, no governo Passos Coelho / Paulo Portas, levou o então diretor-geral dos Impostos, António Brigas Afonso, a pedir a demissão, mas os processos disciplinares foram arquivados, ilibando-o a si e a outros três altos funcionários suspeitos de terem criado a referida lista. Foi inútil. Nada aconteceu.

O líder do PS, António Costa, defendeu publicamente que existiam indícios criminais, que justificaram a iniciativa dos socialistas de remeter o caso para o Ministério Público (MP), que arquivou o processo em fevereiro do ano corrente.

Agora foi a vez da Direção-Geral de Impostos proceder também ao arquivamento. Os instrutores concluíram que “agiram no cumprimento dos seus deveres de proteção dos dados” e não se provou que a lista fosse da responsabilidade do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, que fora acusado de ter conhecimento. Foi certamente suspeição infundada, pois a lista tinha apenas quatro políticos, os únicos com medidas especiais de proteção de dad…

Incêndios

Primeiro foi a hora dos incêndios, do terror e da indizível tragédia da perda de vidas humanas.

Agora chegou a hora dos chacais, necrófagos por natureza, que já estão no terreno a disputar os despojos da morte.

Não é a fome que os atrai, é o odor dos cadáveres.

Os sistemas partidários e a democracia

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A democracia não é um regime político aliciante, exceto no rescaldo das ditaduras. Só quando a discricionariedade do poder, as perseguições e o nepotismo se prolongam por demasiado tempo, é que a democracia é saudada em apoteose.

Portugal teve um longo e penoso período ditatorial, mas se não fosse a derrota militar na guerra colonial e a coragem dos capitães de Abril, ainda perduraria por alguns anos.

Hoje, depois de notáveis avanços, raros na História portuguesa, na saúde, na educação e na esperança de vida, a acentuação das desigualdades sociais, a exclusão de sectores da população do emprego e do bem-estar, fazem esquecer as prisões arbitrárias, os delitos de opinião, a censura, a tortura, as perseguições políticas e a intolerável discriminação da mulher.

Não podemos, no entanto, conformar-nos com a corrupção, cuja denúncia só é possível em democracia, nem com as desigualdades sociais de um país onde é sempre difícil um aumento de alguns euros no vencimento mínimo sem que o Estado …