quinta-feira, março 30, 2017

Corrupção e silêncio partidário

A corrupção não é exclusiva de partidos políticos nem estes são responsáveis pelos atos indignos dos seus militantes, mas devem ser eleitoralmente punidos se permitirem a sua manutenção em funções sem lhes retirarem publicamente a confiança política.

Em Coimbra, em junho de 2007, com Paulo Portas a atestar a honradez da líder distrital do CDS, esta foi condenada a 2 anos e meio de prisão por peculato e outros delitos, tendo ficado provado que se apropriou de 15 mil euros dos transportes dos alunos da Lousã e de géneros alimentícios da cantina. Era um crime da D. Sónia se o CDS, após a condenação, a tivesse afastado do cargo, mas, um ano depois, continuava líder distrital e esgotou o mandato. A manutenção em funções, no mais alto cargo político distrital, com a cumplicidade partidária, foi uma baixeza do CDS e da Comissão Política Nacional.

***

O ex-administrador delegado dos Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), Manuel de Oliveira, foi condenado, em 22 do corrente mês, a uma pena de prisão de três anos e meio, mas suspensa, por crime de corrupção passiva para ato ilícito.

O acórdão deu como provado que o arguido recebeu 20 mil euros, em 10 de abril de 2008, para dar preferência aos autocarros da empresa MAN nos processos de renovação da frota dos SMTUC.

O acórdão, por motivo de recurso para a Relação, não transitou ainda em julgado, mas surpreende que o PSD não lhe retire a confiança. Se não exercesse funções partidárias, seria apenas um caso, lamentável, é certo, de um militante partidário venal.

Mas acontece que o militante do PSD, que recusou receber o suborno em cheque e que foi a Braga onde esperou que fossem levantados em vários bancos, e em dinheiro vivo, 20 mil euros, é o presidente da Junta dos Olivais, uma das maiores freguesias do País.

Apesar de o crime ter sido dado como provado, o PSD aos costumes disse nada e o Sr. Manuel continua a ser o presidente da maior Junta de Freguesia de Coimbra e uma das maiores do País, com cerca de 39 mil habitantes, com o PSD e os partidos satélites em silenciosa meditação até à próxima e renovada coligação para outra vitória autárquica.

A cumplicidade partidária com autarcas corruptos envenena a democracia.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 29, 2017

Fazer humor com um morto

A Audiência Nacional de Espanha (Tribunal Supremo) acaba de sacrificar a liberdade de expressão ao respeito por um ditador fascista.

Fazer humor com um morto é uma questão de gosto, mas condenar quem o faz é um ato de censura e, quiçá, uma homenagem à ditadura que assassinou centenas de milhares de espanhóis.

A Espanha democrática rejubilou no dia em que o sinistro PM fascista, Carrero Blanco, foi liquidado graças à persistência e coragem da ETA, quando esta era uma organização antifascista, antes de se converter num bando terrorista.

Foi nesse dia que nasceu o grito estrangulado pela ditadura na garganta dos democratas: «Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!».

Hoje, mais de 40 anos após o dia em que a morte do substituto de Franco foi a metáfora da morte do fascismo, Cassandra Vera, estudante de História, de 21 anos, ficou a saber que a memória do ignóbil ditador que morreu confessado, comungado e fascista, ainda tem quem a zele.
 
Foi condenada a 1 ano de prisão por humilhação das vítimas do terrorismo, neste caso, de um cúmplice do terrorismo de Estado.

Não te cales, Cassandra. Um beijo.

Consumatum est

Pior, aconteceu em Ponta Delgada.

terça-feira, março 28, 2017

Portugal e o Serviço Militar Obrigatório (SMO)

Noruega
Quando a Suécia regressou ao SMO e a França fez dele tema de campanha eleitoral, em Portugal, quer os políticos, quer as Forças Armadas (FA), enjeitam a discussão.

Em 1999, com o país ferido pela guerra colonial injusta, inútil e perdida, e as juventudes partidárias a fazerem enorme pressão, os partidos representados na AR, com exceção do PCP, votaram a extinção do SMO, quando o deviam ter tornado universal, alargado a ambos os sexos.

A injustiça e inutilidade da guerra colonial não tornou o SMO censurável. Indesculpável foi o destino que a ditadura fascista lhe traçou, mas acabou por ser a heterogeneidade da sua composição que contribuiu para o derrube da ditadura. Aliás, foi já com voluntários da GNR que Portugal participou no crime vergonhoso da invasão do Iraque.

Ninguém duvida de que as FA são apanágio da soberania e têm um alto valor simbólico cuja transferência para forças policiais diminui o significado e a dignidade democrática.

Hoje temos um arremedo de FA, com escassez de voluntários e incapacidade financeira de as suportar, com tendência para o poder ser transferido para uma força policial capaz de ser convertida em guarda pretoriana de uma futura ditadura.

Quando os valores da coesão pátria se diluem perante a inexorável globalização, quando o hino e a bandeira vão deixando de ser reverenciados, como deviam, quando a religião é cada vez mais – e bem –, assunto do foro privado, resta-nos a língua comum. E fazem-nos falta FA universais que ponham em contacto jovens do Minho, da ilha do Corvo, da Madeira e do Algarve, integrados numa vivência comum que argamasse a identidade do País que somos.

segunda-feira, março 27, 2017

Mudança horária


A inteligência desaproveitada

“Em 1989, quando era ministro das Finanças o Dr. Miguel Cadilhe e primeiro-ministro Cavaco Silva, o défice público português também foi de 2,1%. Não se trata, portanto, do valor mais baixo da democracia”, disse Passos Coelho aos jornalistas, no Luxemburgo.

O valor mais baixo do défice não foi 2,1%, foi 2,1%. Com tamanha sabedoria, chegou a PM!

Pensar que 2,1 é inferior a 2,1 explica a sedução de Cavaco por Passos Coelho


domingo, março 26, 2017

Em maré de canonizações...

Três defuntos políticos

Preconceitos elitistas e boçais

Eis como os europeus do "Norte" descobriram o significado da sigla “CGD”

Contrataram um técnico dos europeus do "Sul", no Algarve e eis o resultado:


sábado, março 25, 2017

COIMBRA: Elucubrações sobre independentes e eleições autárquicas…

Não há fome de não dê em fartura’ diz o ditado. Este aforismo popular – que a presente crise financeira vem desmentindo - pode aplicar-se às próximas eleições autárquicas em Coimbra.
Ontem, o jornal Público anunciava a hipótese de poderem existir três candidaturas independentes  nas próximas eleições municipais em Coimbra link.
 
Colocando de fora da apreciação político-partidária sobre o ‘perfil matricial independente’ destas candidaturas (quase sempre regidos pela análise burocrática de ficheiros) a questão premente que se coloca aos eleitores será a seguinte: Nos últimos tempos a cidade foi tão discutida publicamente na sociedade civil para surgirem no terreno da disputa eleitoral uma tal variedade de opções?
 
Ou seja, existem tantos e tão distintos projetos discutidos, pensados ou delineados para o concelho que sejam capazes de motivar os eleitores e ter credibilidade (‘pernas para andar’)?
 
Ou, pior, vamos ficar pelos habituais chavões de que Coimbra está numa espiral de perda de espaço, protagonismo, voz e ‘capacidades’, sem explicar com que planos e meios se pode inverter esta dramática situação?
 
Onde se tem discutido o crónico atavismo da cidade que se instalou à sombra de uma velha Universidade, também em perda no contexto nacional?
 
Coimbra não tem, propriamente, uma ‘sociedade civil’, no sentido 'gramsciano' do conceito. Terá, quando muito, uma sociedade ‘escolástica’, fechada, obtusa, ainda arreigada ao sentido medievo do termo em que misturam posturas científico-filosóficas (académicas) com poses piedoso-religiosas (judaico-cristãs).
Não vemos, pela urbe, uma sociedade civil de pé. Muito do que é visível está sentado, isto é, 'colado à cátedra'.
 
A emergência de candidaturas independentes, oriundas destes labirínticos meios só acidentalmente poderá ser abrangente. Na maioria dos casos não ultrapassará a confraria, a seita, o club, o grupo, isto é, o sectorial. Ninguém representa o que em Coimbra se designa como a 'cidade futrica' (expurgada do sentido pejorativo do termo).
A tentativa de mimetismo do ‘caso Rui Moreira’, vitorioso no Porto, não cola na Lusa Atenas. Nenhum candidato do grupo dos independentes tem um perfil ligado à cidade, ninguém ‘frequentou’ ou ‘batalhou’ no associativismo industrial, comercial, nos movimentos associativos ou sindicais, na reabilitação urbana ou, mais concretamente, na resolução dos problemas da ‘Linha da Lousã’.
Os exemplos sobre estas ‘notórias ausências’ são múltiplos e o denominador comum é que essas candidaturas estão impregnadas de um tosco ‘pára-quedismo’.
 
Na realidade, os receios políticos (e não obrigatoriamente partidários) devem ser outros e mais vastos. A dificuldade dos partidos em congregar os cidadãos em torno de projetos de desenvolvimento local que hoje é pública e notória o que, na prática, têm desinteressado os munícipes das políticas autárquicas, não pode (nem deve) ser substituída pelo renascimento de míticas e obscuras “forças vivas”, surgidas a eito e a preceito.
Sabemos como, no passado salazarista, esse ‘caminho’ foi capaz de arrebanhar gente para projetos à volta de espúrios modelos de ‘Nação’. Não devemos (re)incidir no mesmo engano (‘corporativo’) cujas consequências conhecemos e conduziu sequencialmente ao exorcismo dos partidos políticos e à liquidação da Democracia.
 
O que realmente ‘faz falta’ a esta cidade, como de resto a muitas outras, é criar e alimentar ‘movimentos cívicos’ (económicos, sociais e culturais) capazes de pensar, discutir, construir e propor soluções para as múltiplas questões de proximidade.
Assim, ou a atividade cívica era publicamente reconhecida e capaz de influenciar as estruturas concelhias partidárias colocando o acento na defesa do progresso, dos interesses populares e da qualidade de vida dos conimbricenses ou, em contrapartida, candidatos independentes (‘naturais’) nasceriam deste limbo participativo e caldeados pelas agruras e andanças associativas (consideradas num sentido lato). Andar com o carro à frente dos bois é que não!
 
Em resumo, a assunção de uma plena da cidadania conduz necessariamente à rejeição de continuar a representar – por esse País fora - o papel de ‘indígenas da província’. E isto é tão verdade para os candidatos partidários, como para os ‘independentes’.

Candidaturas independentes, partidos e democracia

Que os eleitores estejam descontentes com os partidos, compreende-se. Que têm dado motivos de desconfiança, pelo tráfico de influências e proteção aos seus fiéis, não será mera suposição. Que a democracia precisa de permanente escrutínio e de participação ativa, é um truísmo, mas é uma exigência cívica a que quase todos se furtam.

Pensar, todavia, que as candidaturas independentes sejam a solução ou sequer mezinha para corrigir os defeitos partidários, é ingenuidade, hipocrisia ou crença malsã.

O país não consegue fazer a reforma administrativa, com redução drástica de concelhos e freguesias, porque a contabilidade partidária e os empregos dependem largamente do poder local. A separação de Guimarães e Vizela ou de Loures e Odivelas, por exemplo, não passaram de novos troféus para a contabilidade partidária, satisfazendo rivalidades locais. Fátima e Canas de Senhorim só não entraram na atomização autárquica porque o bom senso de Jorge Sampaio contrariou a demagogia de Durão Barroso e as ambições dos caciques autóctones.

O que é uma candidatura independente? A de um desempregado político com relações e influência local, a de um preterido pelo seu partido ou a de um regressado de doze anos de edil, interrompidos durante quatro, por imposição legal?

O independente mais conhecido é o presidente da Câmara do Porto. É independente de que partido? É um monárquico próximo do CDS, que o PSD recusou, e que o PS e o irrelevante CDS não têm coragem de enfrentar. Vai ser eleito com os votos do PS, CDS, PPM, Rui Rio e uma autoconvencida aristocracia local.

Se vivesse no Porto e não houvesse candidaturas à sua esquerda, eu votaria no PSD.

sexta-feira, março 24, 2017

As religiões e o terrorismo

“Ó Profeta! Combate os descrentes e os hipócritas! Sê implacável com eles. E a sua morada é o Inferno – e que péssimo destino!” (Alcorão 9:73)

Há entre as crenças, religiosas, políticas e outras, uma ligação direta com a ação, e não se percebe a complacência de que gozam as crenças religiosas relativamente às outras. Não vejo que o nazismo, por exemplo, goze de igual benevolência.

Não é perigoso que se acredite que “Maomé ascendeu ao Céu num cavalo alado” ou que Cristo se tivesse adiantado, de forma incógnita, para o local geograficamente indefinido, mas foi catastrófico para os índios da América que os cristãos se sentissem obrigados a evangelizá-los, como é hoje, para europeus, a exigência islâmica da conversão universal ao profeta amoral e analfabeto com que os intoxicaram.

Ontem, no primeiro aniversário dos atentados que levaram o terror a Bruxelas, mais um atentado em Londres se juntou aos de 7 de julho de 2004, nos transportes, 30 de junho de 2007, com um jipe carregado de bilhas de gás em Glasgow (Escócia) e ao assassinato de um soldado por dois terroristas islâmicos, em 22 de maio de 2013.

Hoje, um homem foi detido na Bélgica ao tentar atropelar a multidão que percorria uma rua de lojas e empresas frequentada por milhares de pessoas em Antuérpia.

Paris parece hoje uma cidade em estado de sítio como, aliás, outras cidades europeias, e nos aeroportos sentimo-nos suspeitos ao sermos devassados, por precaução, depondo a liberdade no altar do medo.

Não podemos ser metódica e regularmente submetidos ao terror, vítimas da insegurança continuada e progressiva.

Os camicases japoneses acabaram depois de secarem as fontes de financiamento e de o deus por quem morriam (imperador) ter sido obrigado a negar a divindade própria, pelo general MacArthur. Mas era, e é, um deus real, talvez algo surreal.

É difícil obrigar um deus, de paradeiro ignorado, a negar-se, mas é urgente combater os seus desejos perversos e, sobretudo, secar as fontes de financiamento dos seus sequazes e reprimir os seus pregadores.

Bastava a crença no versículo supracitado para levar os crentes aos maiores desatinos. E permite-se aos pregadores continuarem a recitar centenas de versículos de igual jaez!

Até quando?

quinta-feira, março 23, 2017

Afinal, há milagres!

Francisco e Jacinta não aprenderam a ler em vida, mas aprenderam a obrar milagres em defunção.

Já é o segundo milagre que obram em “joint venture”, situação rara, que os vai conduzir à santidade, em apoteose pia, no próximo dia 13 de maio, no 1.º centenário da estreia do mariódromo, no cocuruto de uma azinheira.

Jeroen Di[j]sse…

As declarações do inefável ministro das Finanças holandês e ainda presidente do Eurogrupo, o Sr. Jeroen Dijsselbloem, geraram múltiplas reações de repúdio.
Todavia, elas ultrapassam o ‘incómodo imediato’ e vão pôr à prova a solidariedade europeia, num momento em que a crise internacional tem amplos reflexos internos (na UE).
 
Na verdade, as descabeladas declarações de Dijsselbloem são uma edição tardia, requentada, deslocada e anedótica da ‘narrativa oficial’ de alguns centros de decisão europeus sobre uma eventual vivência de alguns países ‘acima das suas possibilidades’, teoria elaborada pelos laboratórios ideológicos neoliberais, para justificar ‘experimentalismos’ e impiedosos ‘ajustamentos’ que se abateram sobre milhões de cidadãos europeus.
Julgávamos que essa ‘narrativa’ tinha sido definitivamente enterrada pelos factos e pelas evidências que foram surgindo ao longo da crise. Atribuir as causas da crise aos povos e/ou a circunstâncias de governação nacionais é ‘tomar a árvore pela floresta’ ou, se quisermos ser mais clássicos, a ‘nuvem por Juno’.
Na realidade, a crise começa nos mercados financeiros e desenvolve-se no sector financeiro à sombra de desenfreadas especulações e de um vasto conjunto de impunidades, imparidades e inconformidades (ditados pela ausência de regulação).
A tirada ‘xenófoba e sexista’ do ministro holandês é muito do estilo da boçalidade portuguesa para caracterizar individualmente vidas (nunca grupos ou países) mais boémias, devassas e libertinas oralmente traduzidas pelo popular e boçal jargão: “putas & vinho verde”. Bem sei que não foi exatamente isto que disse mas andou lá perto (salvo a devida distância que vai entre mulheres e a prostituição).
 
As declarações do Dijsselbloem ao jornal alemão Frankfurter Allgemein Zeitung são politicamente um haraquíri.
Não há outra leitura, excepto, para o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schauble link.
 
A sua inevitável demissão levanta uma outra questão (prévia): como foi possível uma mente mesquinha, intelectualmente tão débil e politicamente desastrada manter-se tanto tempo na presidência do Eurogrupo.
O que há de errado nas instituições europeias que permitem alarvidades desta natureza?
 
Quando a poeira assentar, isto é, quando o Eurogrupo voltar a reunir, os europeus – todos e não somente os dos países do Sul – tirarão naturalmente as suas conclusões. Se Dijsselbloem permanecer no cargo, à custa do suporte de Berlim, espero que os neoliberais radicais não venham com a velha história dos preconceitos anti-germânicos. Mas, uma coisa é certa, a sua 'não-demissão' empestará, irremediavelmente, o ambiente europeu.
 
Para já parece necessária e imperiosa uma tomada de posição de força. Os países do Sul, vilipendiados pelo assumido capataz de Schauble, deveriam condicionar a sua presença na Reunião de Roma, que decorrerá no próximo dia 25 para a comemoração dos 60 anos dos Tratados Europeus, à prévia demissão de Dijsselbloem das funções que exerce nas Instituições europeias.
O ‘espírito de Roma’ assim o impõe.

De Cavaco e Barroso a Donald Trump

A mentira tem a perna curta, mas os mentirosos têm muitas pernas. Parecem centopeias.

O FBI investiga suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, o que, a ser verdade, é um grave risco para a segurança dos EUA, mas Trump, talvez para desviar atenções, acusou Obama de o espiar durante a campanha eleitoral, recorrendo à mentira como tática e à calúnia como estratégia.

É irrelevante que o Departamento de Justiça e o FBI não tenham quaisquer indícios de que Trump tenha sido escutado e espiado a mando do ex-Presidente Barack Obama, o que interessa é o ruído necessário e suficiente para desviar as atenções.

A pós-verdade prenuncia a pós-liberdade, a tragédia que parece corroer as mais sólidas democracias mundiais. O perigo não é a mentira, é a indiferença dos cidadãos à mentira mais torpe e à mais aleivosa das acusações. A anestesia cívica produz gera impunidade e insensibilidade ao embuste.

Trump não é pioneiro, Hitler usou a estratégia com êxito. Aliás, a mentira ganha sempre as primeiras batalhas, apesar da tendência para acabar derrotada.

O PR americano faz a síntese de dois políticos portugueses, agora ávidos de recuperar a confiança dos portugueses, Cavaco Silva e Durão Barroso.

Cavaco, que exige que se nasça duas vezes para ser mais sério do que ele, foi percursor das escutas falsas para prejudicar um partido de que não gosta. Atribuiu à máquina do PS a paternidade da mentira cujo mérito enjeitou.
Barroso, entusiasta da cimeira que definiu aos portugueses como a última oportunidade para a paz, sabia decidida a guerra e falso o pretexto, mas, anos mais tarde, insinuou que o PR, Jorge Sampaio, apoiou a invasão, para depois esclarecer que só concordou com a reunião (a política externa é da exclusiva competência do Governo) e acabar a garantir que foi a primeira pessoa a quem informou da criminosa reunião.

Ainda ressoam os insultos a Sampaio, que ninguém lhe ligava e que a invasão do Iraque era a porta aberta à prosperidade de Portugal na viagem conjunta com os EUA, o Reino Unido e a Espanha, quer ele quisesse ou não. Não pôde empenhar as Forças Armadas do ministro Portas, mandou a GNR, do M.A.I.

Cavaco e Barroso são versões paroquiais, percursores de Trump à escala global.

Ponte Europa /Sorumbático