segunda-feira, agosto 29, 2016

A frase de Passos Coelho

“Quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?” [sic]

Ontem, ouvi a frase em epígrafe a quem, por ironia da História e cumplicidades que um dia se conhecerão melhor, chegou a primeiro-ministro de Portugal, sem antes ter gerido mais do que a Tecnoforma. Sabe-se que se esquecia de pagar à Segurança Social e não se esquecia de exigir o vencimento de deputado em exclusividade de funções, como se fosse essa a sua situação.

Ontem, ao ouvir aquela linguagem, recuei 50 anos e senti um calafrio. Julguei assistir ao regresso da União Nacional e da Pide, da censura e das prisões arbitrárias, da difamação e tortura dos adversários, e de assassinatos de comunistas e sociais-democratas, na via pública e nos presídios, por combaterem o partido único.
Saberá o medíocre cidadão e execrável político que Sá Carneiro e Magalhães Mota (terá ouvido falar do primeiro), os dois primeiros nomes da fundação do seu partido foram ministros de governos patrióticos com Álvaro Cunhal e Mário Soares?

Um discípulo de Salazar, por ignorância e boçalidade, bolçou insultos que eram comuns na ditadura. E foi aplaudido. O país ensandeceu. O fascismo regressa. A ignorância está a comandar o regresso. A grosseria circula como argumento e a mentira como arma.

O medo é o instrumento da castração de um povo e até um idiota o pode instigar.
 
Passos Coelho é indigno do País que lhe permitiu ser PM e a cobardia e o ressentimento são a herança que a formação salazarista lhe transmitiu.

Não é um cidadão respeitável, é um homúnculo despeitado. E mente.

Apostila – Quem me conhece sabe que sou um social-democrata, sem ligações partidárias, mas não esqueço quem encontrei na luta contra o fascismo e, sobretudo, quem teve o maior quinhão de sofrimento. Por isso, ainda não perdi a capacidade de me indignar.

TTIP: pompas fúnebres? …


Na ‘silly season’ nem tudo entra de férias e não acontecem só superficialidades enfatizadas pela imprensa cor-de-rosa ou terríveis desgraças transferidas para esta época para passar ao lado do crivo da cidadania. Há de tudo um pouco.
 
A começar pelo discurso catastrofista de Passos Coelho na Festa de Quarteira, mas apelidada do Pontal, passando pelas peripécias do BCE acerca da CGD e os erros governamentais à volta das nomeações para o Conselho de Administração e a terminar na notícia sobre um eventual falhanço das negociações para o TTIP (tratado de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), anunciada pelo ministro da Economia alemão Sigmar Gabriel link, estamos perante um rodopio de assuntos capazes de perturbar a esperada languidez da época estival.
 
Fiquemos pelo TTIP. Raramente um projecto de negociação levantou tantas suspeitas aos europeus. Da parte americana existe uma relativa absorção pelos problemas internos e o referido Tratado tem ficado à margem das discussões eleitorais para a presidência dos EUA link. Aliás, era intenção do actual presidente Obama deixar este assunto encerrado ao seu sucessor, o que estará cada vez mais longe de acontecer. 
 
O Tratado que tem evoluído num clima do maior secretismo - nunca foi pensado para beneficiar cidadãos incidindo fundamentalmente sobre os interesses das grandes empresas – sempre suscitou dúvidas, mesmo nos círculos mais liberais.
Várias questões gravitam à volta desta parceria euro-americana. Desde a capacidade dos investidores processarem os Estados (europeus, entenda-se), à intromissão das corporações empresariais na elaboração das futuras legislações comerciais, até a uma profunda subtracção de direitos aos trabalhadores (os EUA só reconhecem 2 das 8 normas consideradas fundamentais pela OIT) e um intolerável incremento do desemprego da ordem de mais de meio milhão de trabalhadores (previsto e quantificado pela Universidade de Tufts, em Boston link ), conferem a estas negociações um carácter verdadeiramente assustador.
 
Para além das acusações genéricas de que este tratado seria uma submissão às exigências norte-americanas, julgo que a Europa pode agradecer este falhanço ao Brexit.
O povo costuma dizer que há males que vêm por bem. Assim seja e que descanse em Paz!
 

domingo, agosto 28, 2016

BRASIL: O Senado Federal e as vicissitudes de um fórum político judicializado…

O ‘julgamento’ de Dilma Roussef continua a decorrer nas instâncias políticas brasileiras, de acordo com o estabelecido constitucionalmente e, neste momento, aproxima-se da recta final com a sessão - em curso - no Senado Federal.
As circunstâncias intrínsecas (objectivas) de como está a decorrer este ‘julgamento’ são extremamente reveladoras da imensa carga política que lhe está inerente, o que tem sido denodadamente ocultado.
 
Os ‘julgamentos políticos’ sempre mereceram a suspeição dos cidadãos, conduzem inevitavelmente a ‘sentenças políticas’ e eventualmente a ‘encarceramentos políticos’, sejam demissões, deportações e exclusões e acabam, sempre, por funcionar como um boomerang vindo, tarde ou cedo, a atingir os seus autores, fautores e apoiantes.
 
Estes comportamentos equívocos e nada transparentes são mais frequentes em ditadura mas não deve ser afastada a possibilidade de ocorrerem num regime democrático (se a ausência de ética e a momentânea correlação de forças o permitir). O que parece ser o caso do 'impeachment' de Dilma. Para quem manifeste dúvidas é só rever o turbulento e vergonhoso processo ocorrido na Câmara de Deputados federal link.
 
O ‘travestismo’ dos políticos em juízes é, em si mesmo, uma aberração. Os políticos em democracia são eleitos mas não adquirem qualquer direito ou preponderância sobre os eleitores. Aliás, depois de eleitos, tornam-se os representantes democráticos desses eleitores, mas não vivem por conta própria e não podem dispensar ou prescindir de motu próprio dos escrutínios populares futuros (a última instância decisória) que não deixarão de julgar o passado.
 
Aliás, para assumirem a condição de julgadores, desde logo, pecam por lhes faltar as condições básicas para tal exercício, como seja, a independência (correm por programas partidários e alinham-se por questões várias desde as ideológicas aos interesses mais ocultos e dispares) e a irresponsabilidade das suas decisões (Dilma Roussef é acusada de ‘crime de responsabilidade’) são perfeitamente ‘revogáveis’ e ‘penalizáveis’ em futuros actos eleitorais. Por outro lado, como decorre das regras democráticas, os senadores (exceptuando a bizarra figura dos ‘vitalícios’) não são inamovíveis, bem pelo contrário.
 
Na verdade, qualquer processo judicial tem, em Democracia, regras. Quando, no início da sessão que está a decorrer no Senado brasileiro, Aécio Neves, líder do PSDB e candidato derrotado por Dilma Roussef nas últimas eleições presidenciais, aparece a revelar que a ‘base governista’ não vai fazer perguntas às testemunhas de defesa indicadas pela presidente suspensa link, está quase tudo dito sobre as motivações e a isenção deste órgão político em funções judiciosas (de cassação de mandatos).
 
O 'quase' surge porque nem tudo foi dito e a procissão ainda vai no adro, apesar dos acordos prévios de bom comportamento e evicção dos insultos. Tudo é (ainda) possível, mas o lapsus linguae do senador Aécio que - mais uma vez -  equivocou-se e, no caso vertente, é nítida a confusão entre uma ‘base golpista’ (real) e uma eventual ‘base governista’ (abstrata e 'fabricada')…

Burkíni – uma lamentável coincidência

Um mês depois do massacre de Nice, perpetrado por um demente fascista islâmico, foi uma infeliz coincidência que as mulheres islâmicas, sedentas de sol e água, procurassem as praias locais para estrear fatos de banho adequados às normas do Corão.

E houve quem, malevolamente, visse na pudica manifestação lúdica de fé uma provocação e não uma coincidência.

Há quem veja política em tudo e confunda a piedade com a provocação, quando as vítimas já levam 1 mês de defunção. Podiam lá lembrar-se as muçulmanas de uma tragédia tão antiga!

sábado, agosto 27, 2016

COLÔMBIA: entre a ancestral luta pela posse da terra até à insurgência das FARC…


O acordo de paz assinado pelo presidente da Colômbia e o representante das FARC, no passado dia 25 de Agosto  link, em Havana, carrega às suas costas uma larga carga política, uma longa luta armada e muita violência.
 
Para entendermos a génese de um movimento guerrilheiro que alimentou uma luta durante 50 anos (para alguns países – EUA, EU – apelidado de ‘terrorista’) será necessário recorrer à inventariação de alguns factos históricos (muitos ficam de fora desta resumida súmula) sempre ligados à ‘questão agrária’ que persistindo, no tempo e no terreno, contaminaram e fizeram arrastar um conflito e provocaram tantas mortes.
 
A Colômbia viveu no final do seculo XIX até os anos 30-40 - início da II Guerra Mundial - um próspero ‘período cafezeiro’ que, sendo a principal exportação da Colômbia, valorizou a terra (propriedade rústica), exacerbou os apetites pela sua posse, promovendo a concentração fundiária (latifúndios) e foi a mola propulsora para criar uma insanável ‘questão agrária’ que, não encontrando resolução, nem no diálogo político-partidário, nem num projecto de desenvolvimento nacional que integrasse o meio rural e fosse capaz de redistribuir a riqueza, acabou por envolver o País num processo de profunda crispação política e social e abriu uma longa caminhada para a violência envolvendo tudo e todos: Governo(s), militares, partidos, sindicatos, grupos para militares, organizações civis e, finalmente, uma insurgência nacional que alimentou uma longa e dramática ‘luta de guerrilha’.
 
Será simplificar – mas de qualquer maneira importante para permitir alguma compreensão do problema – reportar o início das lutas internas na Colômbia ao status quo que vigorou alimentado pelos dois partidos tradicionais o Liberal e o Conservador (que se alternaram no poder durante mais de 1 século) mas, fundamentalmente, a uma insolúvel ‘questão agrária’ que, desde Bolivar (um dos ‘inspiradores’ do partido Conservador colombiano), passa pela posse da terra e a redistribuição da riqueza.
 
A criação, a partir de 1931, de inúmeras ‘Ligas Agrárias’ introduziu um novo campo de disputas na Esquerda colombiana onde o partido Comunista (PCC) e a União de Esquerda Revolucionária (UNIR) dissidência do partido Liberal, tiveram uma acção relevante e mobilizadora do campesinato.
 
Efectivamente, tudo se exacerbou quando o Partido Conservador colombiano tentou resolver a disputa pela posse da terra pelo confisco as terras aos camponeses, levantando uma ‘Questão Agrária’, o verdeiro motor da revolta.
 
O assassinato, em 1948, do candidato à presidência da Colômbia, o advogado, político liberal progressista (dirigente da UNIR), Jorge E. Gaitán,  veio colocar a capital Bogotá em pulverosa sob uma onda de destruição e protestos (o ‘Bogotazo’) e as movimentações populares posteriormente estenderam-se a quase todo o País, dando origem a um período conhecido por ‘La Violencia’, altamente conturbado, mortífero e destruidor, que se estendeu por uma década (1948 a 58).
 
Durante este período e com a cumplicidade de multinacionais norte-americanas, nomeadamente a United Fruit Company, os EUA impuseram uma ditadura militar chefiada pelo general Rojas Pinilla que - como é da praxe - governou conluiada com os referidos terra-tenentes, grupos armados paramilitares, o apoio financeiro de multinacionais do café, bananas (Chiquita Brands), cana-de-açúcar, óleo de palma, etc. e, instrumentalmente, utilizou - para a concretização das políticas sobre a terra e de combate a revolta dos camponeses - uma feroz repressão que se traduziu em milhares de mortos.
 
Gabriel Garcia Marquez, dá no seu extraordinário livro ‘Cem Anos de Solidão’ um expressivo retrato literário destas lutas.
 
Em 1961, na sequência das amplas movimentações campesinas e, também, de alterações das políticas do capitalismo americano para a América Latina ( a famosa ‘Aliança para o Progresso’), mudança que ocorre a reboque do êxito e consolidação da ‘revolução cubana’, surge uma nova ‘reforma agrária’.
 
Na sequência desta reforma foi criado o Instituto Colombiano da Reforma Agrária (ICORA) um pouco à revelia dos partidos institucionais, todavia, a ‘Reforma Agrária de 1961’, pouco de inovador comporta e não ataca frontalmente os problemas da vida rural e campesina, sendo uma tímida tentativa dar corpo à incipiente ‘reforma de 1936’ que, logo seguida, foi objecto de uma ‘contra-reforma’ (Lei 100 de 1944). Esta lei (re)introduziu uma actualização da transformação capitalista do sector agrário, configurando um modelo de produção extensiva (de escala), sem mexer no regime latifundiário.
Logo, a oportunidade de enfrentar a questão agrária gorou-se porque o âmbito dessa (pseudo)Reforma pouco mais além ia do que regulamentar a titularidade da terra, não alterando as estruturas e condições da vida rural manteve o ciclo de empobrecimento endémico e progressivo dos camponeses e pequenos proprietários.
 
Na realidade, a reforma agrária de 1961, para além de acertos pontuais na estrutura fundiária para ocultar injustiças gritantes, mais não pretendia do que facilitar a modernização das produções detidas pelos grandes proprietários agrícolas. Este contornar da resolução dos problemas agrários (que sucessivas tentativas de reformas não resolveram) viriam a agudizar a situação política e social interna e demonstravam a absoluta incapacidade de mudar a situação pela vias institucionais.
 
A 'reforma agrária de 1961' viria a ter como consequência também uma outra perversão e foi a porta de entrada, escancarada, para a deriva produtiva dos campos na senda da rentabilidade a qualquer preço, isto é, a narco-produção (cocaína). O ‘cultivo da coca’, uma cultura tradicional colombiana (pré-colonial), cresceu exponencialmente a partir da década de 60, foi uma oportunidade de subsistência para os pobres camponeses mas, rapidamente, transformou-se num negócio cartelizado, baseado em organizações criminosas, que acrescentaram ainda mais violência à sociedade e, a partir da década de 80, constituiu também uma importante fonte de financiamento da guerrilha, ideologicamente muito difícil de explicar e um insuportável desvio ético.
 
As FARC nasceriam alguns anos depois do logro da 'reforma agrária de 1961', formalmente em 1964, sob o signo da recorrente e insolúvel ‘Questão Agrária’ mas, na prática, só começou a operar depois da 2ª. ‘Conferência do Bloco Sul’ (1966), realizada na inóspita região de El Pato, onde são eleitas as chefias militares e organizados 6 destacamentos guerrilheiros.
 
Depois foram 50 anos de luta mas, por questões de espaço, fiquemos por aqui.
 
À laia de conclusão resta afirmar que o acordo alcançado em Havana há poucos dias, tem necessariamente de resolver, para além da integração política, económica e social dos guerrilheiros, o problema central, isto é, a ‘questão agrária’. Uma tarefa para os tempos contemporâneos, onde se imiscuem problemas de competitividade e de rendimentos dos camponeses, numa América Latina instável e face às dificuldades de um mundo varrido pela onda globalizante. Será necessário um esforço hercúleo.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Jacobinismo, democracia e adereços pios

Apesar da sanha contra o jacobinismo, injustamente recordado pela violência, gratuita e intolerável, deve-se-lhe a genuína defesa da democracia, razão do ódio dos que têm uma herança menos recomendável na defesa das liberdades e mais pesado na crueldade.

O jacobino, exatamente por amor à liberdade, não aceita que a limitem os que a odeiam, a desafiem os que a pretendem destruir, e a minem os que impõem verdades únicas.

As religiões, sobretudo as que não sentiram a repressão do seu clero, obrigado a aceitar o laicismo, são hoje um fator de instabilidade e de terror, imposto pela fúria demente de um proselitismo incansável e inadmissível.
Como as leis dos países civilizados e democratas são obrigatoriamente abstratas, gerais e imperativas, não se deve, por exemplo, interditar o burkíni, quando a burka já cai sob a alçada da proibição, por razões de segurança, de ocultar o rosto.

Sendo a discriminação inaceitável e impune o desafio não violento à democracia, não há forma de evitar as provocações do Islão político, sem impedir a apropriação do espaço público pelas religiões.

Proibir, no espaço público e organismos oficiais, as indumentárias que manifestem uma pertença religiosa pode tornar-se necessário para garantir a tranquilidade, evitar insultos e defender todos os cidadãos da discriminação e animosidade das religiões concorrentes.

É intolerável que as ruas sejam ocupadas por crentes que aí procuram rezar (provocar) e promover a fé, impedindo o trânsito. A lei terá de proibir, fora dos locais de culto, as vestes clericais e adereços litúrgicos, mitras, tonsuras, batinas, burcas, kipás ou hijabs, bem como todas as vestes que os clérigos e crentes de qualquer religião exibem.

Urge impedir o retorno das rivalidades pias e da guerra de religiões que já está em curso no espaço europeu. Não podemos ignorar a atmosfera de medo que limita a liberdade, o terrorismo que ameaça a democracia e a demência religiosa que destrói a civilização.

A herança renascentista e iluminista da Revolução Francesa, civilização que nos coube, não pode ficar à mercê de quem troca os Direitos Humanos pela ilusão do Paraíso.

A proibição exclusiva do burkíni, condenada por quem não quer perceber o contexto, e ontem expressamente apoiada pelo PR francês, beneficia os cúmplices do terrorismo e tem o apoio dos inocentes úteis.

quinta-feira, agosto 25, 2016

CGD: os pontos nos iis…

A hipocrisia de Passos Coelho continua a revelar-se no problema da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
 
Quem vivesse noutro planeta e estivesse completamente divorciado  do contexto nacional poderia ser induzido a julgar que esta instituição bancária teria sido criada pela denominada ‘geringonça’.
Quando pede explicações sobre os ‘custos da recapitalização’ e adianta a mórbida curiosidade em conhecer "quantos trabalhadores serão despedidos" e "quantos balcões encerrados"[ link ] está pura e simplesmente a revelar como seria ‘sua recapitalização’.
 
A verdade é que os problemas da CGD foram-se acumulando nos últimos 4 anos e sistematicamente ocultados pelo governo Passos Coelho/Paulo Portas/Maria Luís Albuquerque. Todos sabemos que a situação da CGD não nasceu ontem.
 
As rábulas à volta desta recapitalização, encenadas pelo PSD e CDS, mais não têm feito do que prejudicar o sistema financeiro nacional.
 
Os custos desta inadiável recapitalização terão directa ou indirectamente um rebate orçamental. Mas não é isso que preocupa Passos Coelho.
O que verdadeiramente incomoda o ex-governante é que uma recapitalização bem-sucedida tem como consequência gorar os seus secretos desejos (e projectos) de privatização deste banco público. E esta situação não é de somenos importância. A CGD é um dos poucos sobreviventes da ‘saga privatizadora’ do Governo PSD/CDS que, ao longo de 4 anos e meio, alienou tudo o que fosse - ou ‘cheirasse’ a - público.
 
O processo de recapitalização da CGD não está isento de incidentes como tem sido referidos na imprensa que passam pela atitude ‘paternalista’ do Banco Central Europeu e com as atribulações do processo de nomeação da nova administração .
Mas para além dos tropeções circunstanciais o substancial é o Estado continuar a manter na esfera pública o maior banco português e dar-lhe a pujança necessária para poder cumprir um novo papel no desenvolvimento económico.
 
Os contribuintes portugueses que tanto dinheiro tem despejado na banca privada saberão distinguir o que é um financiamento público de um banco público das nacionalizações e ‘resoluções’ públicas de bancos privados para o enriquecimento de alguns. Passos Coelho espera que os portugueses não tenham esse discernimento.
 
Todavia, 4 anos e meio de várias extorsões foram abrindo os olhos aos cidadãos.

Portugal, a Concordata e o fisco

As igrejas não pagam IMI nem vão passar a pagar, por serem locais de culto, mas, por exemplo, as instalações destinadas a fins educativos passarão a pagar. E basta o facto de a lei passar a ser cumprida para agitar as mitras, brandir os báculos e azedar as homilias.

Os tratados entre Estados não são referendáveis (CRP), mas são passíveis de ‘denúncia’, ou seja, assiste a cada uma das partes o direito unilateral de lhes pôr termo.

A Concordata é um tratado assinado entre o Estado do Vaticano e países católicos, uma obsessão que conduziu a funestas alianças com países fascistas. O Vaticano resultou dos Acordos de Latrão, a Concordata com Mussolini (‘o envido da Providência’, segundo o Papa de turno), que lhe concedeu largas somas de dinheiro e comprometeu a Itália com o ensino obrigatório da religião católica em escolas públicas, direito que perdurou várias décadas depois da derrota do fascismo.

A Concordata é um instrumento de inaceitáveis privilégios da Igreja católica em países que o Vaticano considera católicos (como se os países laicos pudessem ser definidos de forma confessional) e que serve de chantagem sobre os governos que recusam que o seu País se torne um protetorado pio.

A guerra dos colégios e a luta contra o IMI são a face visível da guerrilha que nasce nas sacristias e ameaça as ruas portuguesas.

Espera-se que as mitras não façam perder a cabeça aos clérigos e se conformem com um Estado laico onde os privilégios a uma religião escancaram as portas a outras.

Depois do 25 de Abril a liberdade religiosa é um direito adquirido e inquestionável em Portugal, não se justificando a manutenção da Concordata ou de qualquer tratado com as diversas religiões que devem ser consideradas e respeitas como meras associações de crentes.

Perante exigências inadmissíveis, uma gula feroz e tiques medievais, urge resistir-lhes.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 24, 2016

Era assim na ditadura

  
A moral e a ditadura

Há entre a pulsão repressiva das ditaduras e o respeito pelos direitos individuais, próprio das democracias, um abismo.

Será certamente perigoso atribuir à moral um desígnio que ultrapasse a simples ciência dos costumes, mas é de uma enorme ingenuidade ignorar as provocações que se fazem à liberdade em nome da tradição e dos ‘bons costumes’.

Há uma memória, sinistra e longeva, eivada de misoginia, que o algoz de Santa Comba Dão se esforçou por preservar. Só depois dele a carmelita Lúcia sentiu a necessidade de pedir a Marcelo Caetano que não autorizasse vestidos curtos e sem mangas. A santidade exige vigilância nos costumes, vigilância que não passa despercebida dentro das grades do Carmelo nem dos próceres das ditaduras.

O salazarismo zelava pela moral e pelos bons costumes.

Foi há 444 anos - Aniversário do massacre de S. Bartolomeu


Dois anos depois do tratado de paz em que Catarina de Médicis tinha oferecido tréguas aos protestantes, estes foram vítimas do mais hediondo massacre católico na noite de 24 de agosto de 1572.

Foi o massacre mais cruel do século XVI contra protestantes. No dia de S. Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planeados pela família real.

O crime valeu a Carlos IX, rei de França, a mais alta condecoração papal – a Rosa de Ouro – que o Papa Gregório XIII lhe enviou, apesar da diminuta responsabilidade do jovem rei, ainda dominado pela mãe.

A encomenda de um Te Deum, pelo Papa, para ser cantado em ação de graças, e de uma medalha cunhada com a frase Ugonottorum strages 1572 com um anjo a empunhar uma cruz e uma espada perto dos protestantes mortos, deixou nos protestantes a convicção de que o catolicismo era uma religião sanguinária e traiçoeira.

As guerras religiosas são uma trágica herança europeia onde os novos ódios religiosos despontam.

Fonte principal: Wikipédia.

terça-feira, agosto 23, 2016

Já não há milagres como antigamente_2


Do meu amigo e familiar Carlos Ferreira, que alia a enorme cultura a um refinado gosto estético, publico a mensagem e a sua excelente foto.

«Há mais por cá, Carlos (a wikipédia regista 16 casos em França). Aqui tens, na foto que tirei da imagem existente na abadia cisterciense de Chambon-sur-Voueize (Creuse), Santa Valéria de Limoges. A cefalófora (que palavras aprendemos com estas histórias da religião!!!) seria filha do governador de Limoges e prometida a um alto funcionário romano pagão, com quem terá recusado casar.

O noivo, despeitado, mandou-a decapitar, mas morre, ele próprio, vítima da cólera divina, no momento da execução.

A santa, decapitada, recolheu a própria cabeça e durante três dias, carregando-a nas mãos, caminhou até ao monte de Saint-Étienne onde S.Marcial celebrava missa e a absolveu, permitindo-lhe morrer em paz (não sei se então terá deixado cair a cabeça, a lenda nada diz sobre tal, nem sei se no céu é permitido entrar com ela nas mãos).»

Já não há milagres como antigamente


segunda-feira, agosto 22, 2016

Silly season – Os tomates e a cruz romana


Dizem-me que o fruto começa a ser alvo da repugnância islâmica, não pela cor, sabor ou aplicações culinárias, mas pela configuração que o corte exibe.

O aparecimento da cruz, ao corte, produz o mesmo incómodo que a cabeça de porco. Os muçulmanos já se lhe referem como ‘frutos cristãos’ e veem, na abundância e na dimensão, um perigo para a fé e uma ofensa ao Profeta.

Mal sabem eles que os portugueses os reduzem a polpa à semelhança do que acontece a certos crentes quando detonam um cinto de explosivos.