quinta-feira, janeiro 19, 2017

A liberdade de expressão e a expressão da censura

Que a liberdade de expressão tenha limites, que o apelo ao crime e à violência, a calúnia e a difamação sejam criminalizadas, é hoje consensual nas sociedades civilizadas e democráticas, mas considerar como apelo à violência dizer mal de um morto ou de um vivo, sem o mais leve intuito de incentivar agressões, que só o vivo sofreria, é censura.

Recordemos os facínoras que mataram os cartunistas do Charlie Hebdo. Estes tinham o direito e a coragem de publicar o que publicaram. Responsabilizar os jornalistas é punir as vítimas e desculpar os algozes. Só compra e lê o Charlie quem quer.

Há na autocensura e nos limites inventados, à margem da lei, a interiorização dos tiques que a ditadura inseriu, à guisa de genes, até em democratas. Que fará nos que desprezam a liberdade e defendem que o respeitinho é muito bonito!?

Pode dizer-se mal de Mário Soares? – Claro que pode. E de Moisés, Cristo, Maomé ou Buda? – Porque não? E de Mandela, Gandhi ou Luther King? – Claro que sim.

Dizer que o Antigo Testamento é um manual terrorista ofende numerosos crentes, mas aceitar a sua xenofobia, o racismo, o esclavagismo, a misoginia, o incesto e outras crueldades, é defender a moral das tribos patriarcais da Idade do Bronze. Os cristãos ou não leram o A. T. ou afirmam que o que lá está escrito não significa o que escrito está.

Lembremos criminosos mortos, que nunca deviam ter nascido: Hitler, Estaline, Franco, Salazar, Pinochet, Mao, Pol Pot, Videla, Somoza, Tiso, Enver Hoxha. Sou insensível às suscetibilidades de descendentes e sequazes órfãos. Ou execramos os pulhas ou alguém fará deles modelos. Só faltava haver punição por desrespeito a tão ruins defuntos!

A moral, contrariamente ao que muitos pensam, não é universal e os deuses enganam-se mais do que os homens. Já se engordaram mulheres, em gaiolas, para consumo humano. Há quem abomine a música, a carne de porco, a nudez, a autodeterminação individual e o livre-pensamento. Há 152 anos, Pio IX publicou a ignóbil encíclica Quanta Cura (8/12/1864), acompanhada do famoso Syllabus errorum, o que não lhe tolheu a carreira da santidade ou impediu os seus sucessores de herdarem a infalibilidade papal e o mito da virgindade de Maria, dois dogmas tão desprezíveis como o seu antissemitismo.

Urbano II, Estaline, Pio IX, Mao, Calvino, talibãs e cruzados não se podem comparar a democratas e humanistas.
E Deus, pode ser ofendido? Bem, se fizer prova da sua existência, o juiz deve relevar a importância do cargo, mas não deverá aceitar a queixa de um clérigo, por não ser parte nem ter procuração.

E se os que me lerem me insultarem? Têm esse direito. A liberdade de expressão dos homens é irrenunciável e superior à alegada vontade de qualquer deus.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Assunção Cristas e a AR


Assunção Cristas acumula a docência universitária e a indecência parlamentar, a raiva da opositora e as maneiras da Praça da Figueira, o interesse pelo direito e a avidez pela liderança da direita.

Ao chamar mentiroso, com esta mesma palavra, na AR, ao primeiro-ministro, acabando por ser desmentida pela UGT, não foi a docente de direito, foi uma indecente da direita, mas é como rata de sacristia que se destaca, na hipocrisia judaico-cristã e na desfaçatez com que humilha o líder do PSD, enquanto Nuno Melo, ainda pior, a não humilhar a ela.

Nas eleições para a câmara de Lisboa deixou Passos Coelho hesitante entre a rendição e o salto no abismo, mas foi na TSU que cristãmente (Cristas mente), em um dos números de mais refinada hipocrisia, proclamou à comunicação social a abstenção do CDS, para “proteger acordo de concertação social”.

E não se riu. É preciso topete!

António Barreto e as magistraturas

António Barreto (AB), o sociólogo, é um dos mais influentes intelectuais da direita portuguesa, apesar da ingratidão desta. Limita-se naturalmente a exercer o inalienável direito de cidadania a que todos temos direito, mas sem merecer os encómios que lhe prodigalizam.

A violência com que ataca a esquerda, sem cair na boçalidade da direita que ora dirige o PSD e o CDS, faz dele uma referência política credível, ampliada pela alegada isenção partidária, uma confusão entre a ausência de inscrição partidária e o ressentimento político.

AB foi militante do PCP, de onde saiu pela esquerda, por considerá-lo pouco revolucionário, e fazer, depois do 25 de Abril, a viagem pelo bloco central, como deputado e ministro do PS, até se passar definitivamente para a direita, desiludido com um partido que julgava poder liderar.

Em 1979, AB juntou-se ao [PPD/PSD + CDS + PPM] no Movimento dos Reformadores, com José Medeiros Ferreira e Francisco Sousa Tavares, tendo a glória de ter participado na AD (Aliança Democrática), na primeira vitória da direita depois do 25 de Abril.

Está, pois, justificada a acidez do trânsfuga contra a esquerda, onde via amanhãs que cantam, para acabar clamando ao serviço de quem chora o ontem, incluindo um merceeiro holandês.

Nos domingos debita uma homilia escrita na página 2, do DN. Só o hábito de ler o jornal diário, hábito adquirido aos dez anos, com o meu pai, me impele a comprar o exemplar de domingo e a acabar por ler AB, para saber o que pensa a direita culta e civilizada, embora nem sempre a verdade acompanhe a qualidade do fotógrafo e do prosador.

No domingo, depois de divagações várias, escreveu: «Já o PCP tem indiscutível influência nos sindicatos e nas instituições públicas como os serviços de saúde e de educação, os funcionários, as magistraturas ou as polícias.» (sic).

Não me surpreende a acusação gratuita, só estranho o silêncio do sindicato dos magistrados do Ministério Público e, sobretudo, do dos juízes, sob o pseudónimo de Associação Sindical.

Já alguém pensou no alarido que teriam feito se a acusação de sinal contrário fosse feita por uma personalidade de esquerda?

Declaração de interesse: tenho discordado repetidamente da existência de sindicatos de magistrados, especialmente de juízes, por pertencerem a um órgão da soberania.

terça-feira, janeiro 17, 2017

A "DIREITA JAQUINZINHO"

Noticiaram ontem vários jornais que oito "tubarões" acumulam uma riqueza igual à de metade da Humanidade. Pois ainda há membros desta metade que os defendem! Na esteira do Dr. Cavaco, dizem que esses vampiros, cuja existência só é possível graças a um sistema social e económico fundado na injustiça e na desigualdade, são "empresários de sucesso"!

    Alguns desses indivíduos, ganhando 600 euros por mês mas vivendo num bairro em que a maioria das pessoas está desempregada ou ganha o salário mínimo, julgam-se ricos, pensam que fazem parte do "clube" dos tais vampiros e votam como eles!

    Outros, vivendo numa aldeola onde a maior parte dos habitantes estão no limiar da miséria, porque têm um bocadito de terra de onde tiram umas batatitas e umas cebolas, julgam que fazem parte da mesma classe a que pertencem os latifundiários alentejanos, e votam no CDS!


Outros ainda, pequenos e médios intelectuais que vivem das migalhas que caem da mesa dos ricos ou dos ossos que estes lhes atiram, inventam teorias falaciosas para justificar a opulência dos ricaços que parasitam.


E acusam os que, apesar de não viverem na miséria, são contra a injustiça e a desigualdade, de serem a "esquerda caviar"!


Eles é que são a "direita jaquinzinho"!

COIMBRA - Jantar republicano do 31 de Janeiro

MR5O – Núcleo de COIMBRA
Jantar republicano evocativo dos 126 anos da revolta do 31 de Janeiro de 1891



O Movimento Republicano 5 de Outubro (Núcleo de Coimbra), mais uma vez, irá comemorar a data emblemática da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, como momento crucial do percurso do Portugal Republicano.

Assim sendo, exortam-se os Republicanas/os para um jantar a realizar, no próximo dia 31 de janeiro, terça-feira, a partir das 19h30, no Restaurante A Brasileira, localizado na rua Ferreira Borges, em Coimbra.

As inscrições podem ser feitas até ao dia 28 de janeiro, para anabela8@hotmail.com 
Ou para Carlos Esperança aesperancaenator@gmail.com ou TM. 917322645.

Não esquecer no ato de inscrição referir a preferência por peixe ou carne, bem como se deseja sopa.

Ementa:
Entradas variadas; Sopa de alho francês (só para quem o indicar); bacalhau à casa ou, lombinho de porco gratinado com rolinhos de bacon; bolo de limão e coco, fruta laminada (laranja/ maçã) e café. Bebidas: vinho; água e sumos.   


Preço € 15,00 (Pagamento no local)


segunda-feira, janeiro 16, 2017

A direita e os militares da ONU

O PSD e o CDS apoiam a ida da força militar portuguesa, sob bandeira da ONU, na sua missão de um ano, para a República Centro-Africana (RCA), ‘mas´ dizem que os riscos são maiores do que os admitidos pelo Governo.

Nesta preocupação pelos militares, em missão de paz, há a profunda hipocrisia de quem espera dizer «eu bem avisei», tiveram bom mestre, para colherem os frutos eleitorais da comoção que a morte eventual de compatriotas sempre acarreta.

Os que hoje se preocupam com os perigos dos soldados da paz, são filhos dos que não se afligiram com os mortos e estropiados da guerra colonial, e são ainda os mesmos que apoiaram a agressão ao Iraque onde não foram militares, por se ter oposto o PR, Jorge Sampaio, Comandante Supremo das F.A., mas quiseram participar em um crime contra a Humanidade enviando a GNR.

Na agressão não tiveram preocupações, com os soldados da paz, encontram um ‘mas’.

domingo, janeiro 15, 2017

Nas vésperas da tomada de posse de Donald Trump…

Nas vésperas da tomada de posse do presidente eleito norte-americano Donald Trump o Mundo conhece dias de agitação, confusão e intensa perigosidade.
Desde o aviso da China sobre a conceção da “China única”, às relações entre os EUA e a Rússia passando pela transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém para acabar no acordo UE/Turquia tudo estremece.

As declarações de Pequim (advertências) sobre as intenções reveladas pela nova administração americana são extremamente duras, claras e incisivas. O princípio da ‘China única’ não é um assunto que Pequim aceite como negociável e as sinuosas e levianas posturas de Trump em relação a Taiwan, constituem um tremendo risco politico e militar.

O relacionamento entre os EUA (entenda-se o ‘Ocidente’) e a Rússia foi abordado de forma obscura e enigmática por Trump na sua primeira conferência de imprensa pós-eleição. O problema ucraniano – em que a Europa sob o servilismo de Barroso serviu de ‘ponta de lança’ da NATO – estará em vias de fazer parte de qualquer negócio. Apesar dos desmentidos do futuro Secretário de Estado dos EUA, perante o Congresso, algo deverá estar em marcha. Resta, depois, apurar a quem serviram as ‘sanções’ que se estabeleceram, já que ninguém acredita em medidas com efeitos económicos ‘neutros’.

A ‘questão Palestina’, sob uma enorme tensão desde a aprovação de uma resolução pelo CS da ONU exigindo o fim da implantação de colonatos conhece uma nova escalada. A anunciada transferência da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém deverá originar uma nova escalada de violência na região.
Nesta mesma região, a ‘situação síria’ conhece um período de alguma acalmia mas grande parte desse ilusório ‘sossego’ passa pelo afastamento dos EUA do centro do conflito e de acordos marginais estabelecidos entre a Rússia e a Turquia. 

A acordo UE/Turquia quanto aos refugiados, bem como as recentes manobras da NATO na Polónia, serão por assim dizer os problemas mais próximos para os portugueses (enquanto europeus).

O problema dos refugiados cavou profundas fissuras nos membros da UE e a solução de colocar (a troco de milhões de euros e promessas de adesão) o Governo de Erdogan a servir de ‘tampão’ não se revelou eficaz. Tornou-se num objeto de permanente chantagem de Ankara sobre Bruxelas (e Berlim) e falta conhecer quais serão as decisões dos Tribunais Europeus sobre os recursos em apreciação.

Finalmente, o reforço da presença da NATO na Polónia, isto é, às portas da fronteira geográfica entre a Rússia e a UE, dificilmente escapará ao estatuto de uma dupla provocação. Primeiro, às linhas vermelhas de segurança defendidas por Moscovo, depois, não deixa de ser um último gesto da administração Obama para ‘envenenar’ as futuras relações Washington-Moscovo.

Na realidade, o acender de fogos por todo o lado leva-me a especular se o processo de nomeação de António Guterres para Secretário-Geral da ONU não foi um ‘presente envenenado’. Pouco mais de uma dezena de anos depois de se afastar do pântano está ameaçado atolar-se num insondável e profundo lamaçal.

O arcebispo de Barcelona e o aborto

O bispo de Barcelona, Joan Josep Omella, condenou o aborto “incluindo o que resulta de uma violação”, e comparou-o ao genocídio.

É desta têmpera que se fazem os talibãs, desta mentalidade que resultaram as fogueiras do Santo Ofício, deste clericalismo troglodita que nasce o anticlericalismo e o desprezo pelo magistério religioso.

O arcebispo de Barcelona cultiva o pensamento pio de que a violência sobre a mulher, a violação incluída, é uma ninharia comparada com a interrupção da gravidez por risco de vida da mãe, malformação do feto, violação ou qualquer outra razão legal. Há de julgar, na sua obtusa formação, que a masturbação é um genocídio e que a sexualidade só é legítima para a prossecução da espécie.

Há dignitários católicos fossilizados, incapazes de compreender os dramas humanos e de perceberem que um feto anencéfalo é incompatível com a vida e não pode, sequer, chegar a bispo.

A misoginia do pétreo celibatário impede-o de compreender a violência, humilhação e sofrimento da mulher vítima de violação.

Se a gravidez fosse masculina, o aborto, em vez de pecado, seria um sacramento.

sábado, janeiro 14, 2017

Mário Soares, o CDS e a descolonização

Ninguém é obrigado a gostar de um morto, por muito excecional que tenha sido, nem a alterar os sentimentos que por ele nutria em vida. Se não houvesse fascistas, teriam sido dispensáveis os antifascistas e a Revolução de Abril.

O que é intolerável é a ignorância de um deputado em relação à História, numa atitude a recordar calúnias da Pide e dos fascistas, a polícia a publicá-las nos jornais portugueses, e os outros, depois de Abril, nos jornais brasileiros, para as transcreverem ao abrigo da liberdade oferecida.

Nuno Magalhães [CDS] elogiou Soares, mas não esqueceu “processo de descolonização apressado”.

Nesta declaração, tão leviana e ressabiada, fez a síntese entre a síndrome portuguesa de “Pieds-Noirs” e a síndrome de Estocolmo de antigos combatentes, estes a esquecerem os algozes, e a julgarem-se heróis, no sofrimento que lhes foi imposto.

A descolonização portuguesa principiou em Dadrá e Nagar-Aveli (1954), Ajudá, cujo forte ardeu por ordem do ditador Salazar (2/8/61), e Goa, Damão e Diu (dez. 1961). O princípio do fim começou em 15/03/1961 com o selvático ato de terrorismo da UPA (depois designada FNLA), em Angola, onde assassinou barbaramente quase um milhar de colonos brancos e milhares de trabalhadores negros, e na vindicta do exército, onde o sádico alferes Robles foi símbolo do horror. A descolonizou continuou em três frentes, com Wiriamu, em Moçambique (16/12/1972), 7481 mortos, 1852 amputados (soldados portugueses), até à derrota portuguesa que conduziu ao 25 de Abril.

Quem não percebe que Portugal foi derrotado, como todos os países colonialistas, e que a descolonização durou 13 anos, aliás 20, já sem alternativa, não entenderá a eficiência das Forças Armadas Portuguesas a retirarem de três teatros de guerra (96.392 homens sem uma só baixa), caso único no mundo, e, muito menos, o que foi a descolonização.

Não vale a pena explicar a Nuno Magalhães que Mário Soares foi grande pelo que diz o fundador do seu partido, Freitas do Amaral, na carta de homenagem que enviou ao DN, considerando-o “o maior político português do século XX”.

Mário Soares teve um papel modesto na descolonização, quando comparado ao de Melo Antunes e dos altos comissários da Guiné, Angola e Moçambique, ou seja, ao do MFA, sob cuja égide se lavraram as escrituras de independência das colónias.

O deputado do CDS, por ressentimento, seu ou da líder do seu partido, típica Pied-Noir, nunca entenderá o que devemos a Melo Antunes e Aniceto Afonso, evitando o massacre de militares portugueses em Moçambique, por culpa das obscuras manobras de Spínola, nem a grandeza do país que acolheu, como devia, e mereciam centenas de milhares de refugiados.

Nota – O signatário cumpriu quatro anos e quatro dias de SMO, 26 meses dos quais em zona de guerra, em Moçambique.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

As autarquias, as eleições e a lacidade

Compreende-se que, em anos eleitorais, os autarcas preparem a reeleição e a vitória partidária. Apesar do excesso de autarquias, a exigir a eternamente adiada reforma administrativa, não falta dinheiro para passear idosos e oferecer-lhes lembranças, com o pretexto de apoiar os velhos, agora designados seniores.

A desejável disputa partidária não pode confundir-se com o suborno do eleitorado, nem pôr em causa os princípios da laicidade e da ética republicana.

Já começaram as excursões a Fátima, no ano em que se conjugam o centenário das alegadas visões dos pastorinhos, a suposta crença dos idosos e as eleições autárquicas. Os autarcas oferecem a viagem, o seguro e o almocinho, não tanto por acreditarem em milagres, mas porque sabem que quem dá aos velhos recebe em votos.

A comunicação social já transformou as alegadas visões, de há um século, em aparições, sem aspas, o baile do sol em milagre e as visões da D. Lúcia, revistas e aumentadas, em profecias. A vinda do papa, aliás pessoa de bem, é o golpe de marketing combinado.

Num país em que a superstição e o atraso da ditadura ainda se fazem sentir não é crime pactuar com a encenação pia, mas não é bonita ação e, muito menos, que seja praticada com o dinheiro público, à revelia do espírito da Constituição e da decência.

É o contubérnio entre a administração pública e o clero católico que vai esmorecendo a vigilância cívica às novas religiões, que disputam o mercado da fé de forma agressiva, ou a uma antiga que a procura impor à bomba.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Espanha ainda é franquista?


Uma jovem, que não conheceu o genocida Franco nem o seu primeiro-ministro Carrero Blanco redigiu uma piada no Twitter, com a imagem do atentado que vitimou o fascista. Gracejar com a morte, mesmo de um almirante torcionário, é mau gosto, mas o risco de prisão é censura e intimidação aos familiares das vítimas do franquismo.

Em 20 de dezembro de 1973, o almirante que se preparava para suceder a Franco, de quem era um indefetível admirador e cúmplice, à saía da missa, bem comungado e benzido, entrou no carro oficial. Projetado por uma potente bomba colocada num túnel laboriosamente construído, caiu morto à altura de um 5.º andar no terraço dos jesuítas a cuja capela ia diariamente assistir à missa e comungar.

Foi a resposta possível à ditadura, à pena de morte por garrote e a centenas de milhares de vítimas. A ocorrência popularizou em Espanha e Portugal o slogan “Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco”.

Num país onde não é ainda possível dar enterramento aos milhares de assassinados que jazem em valas comuns, só falta prender uma jovem por questão de gosto.

A Índia, o hinduísmo e a laicidade

Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva
criador, preservador e destruidor
As religiões só aceitam a laicidade quando minoritárias. Quando se tornam hegemónicas logo recorrem ao lugar-comum revelador de hipocrisia e desfaçatez: “Não se pode tratar de modo igual o que é diferente”.

Hoje, a separação das Igrejas e do Estado faz parte do ethos civilizacional do Ocidente e é a conquista ameaçada na dramática hipótese da extinção das democracias, receio que se sublinha. A vigilância cívica é uma exigência ética e condição de sobrevivência. Não há democracias perpétuas. Nada é eterno.

Volto à laicidade, a forma que os Estados têm de garantir a neutralidade e de julgarem a demência prosélita de diversas religiões, insânia exacerbada com a globalização. Várias religiões receiam que outra – e única –, se imponha a nível planetário, ou que o ateísmo, o racionalismo, o ceticismo e o agnosticismo as releguem para o baú da mitologia.

Os Estados democráticos, que devem defender igualmente os crentes e não crentes, com a obrigação de serem neutrais e se declararem incompetentes em matérias de fé, têm vindo a afrouxar, por razões eleitorais, a defesa da laicidade, e a cumpliciarem-se com a Igreja dominante, com trágicas consequências para os crentes das religiões minoritárias.

É por isso que a jurisprudência da Índia é uma janela de esperança que se abre no maior país hindu, onde o sistema de castas, a discriminação insana das viúvas, e a violência do nacionalismo hinduísta representam um atentado aos direitos humanos. Em 2 de janeiro, deste ano, o Supremo Tribunal da Índia proibiu “qualquer campanha política baseada na religião, raça, idioma ou casta”. “A religião não pode ter nenhum papel no processo eleitoral porque os comícios são um exercício secular, assinalou o coletivo de juízes na sentença”, aprovada por 4 dos 7 membros.

Esta vitória da laicidade foi o triunfo secular sobre a fé, a supremacia da razão sobre as vacas sagradas e da democracia sobre as crenças. E não se diga que a religião é ferida com a exemplar jurisprudência indiana.

Fonte: LAICISMO.ORG · FUENTE: PRENSA LATINA · 2 ENERO, 2017

Ponte Europa / Sorumbático